O comboio segue, os pássaros continuam a voar
(pelo que posso supor da janela)
Aqueles estofos vermelhos escuros continuam vermelhos escuros.
O carro morre e dentro dele não cabem os futuros
que eu tenho que viver e ainda não resolvi.
Puxo pelo carro em segunda
como puxo por mim própria
(mal).
A glorificação do ser-se ocupado
A culpa de não ter feito o que outros fizeram
Aquela cara que tu fizeste
A minha culpa, a minha culpa.
O relógio diz que são nove e quarenta
e eu fico mais tempo no carro
Parece que nada existe fora dele
neste preciso momento.
O espetáculo a que me submeto
ao perder-me em detalhes como:
o céu azul é bonito. as árvores e os pássaros.
e tudo parece um ecrã, tudo parece um filme
Alguma coisa vai voltar a ser real outra vez?
Não quero ser um Pessoa mas talvez se voltasse à infância
e cantasse com ela, sentisse--
isso foi só ausência de passado
e presença de demasiado futuro?
Um futuro projetado de videoclips da Madonna
Revistas de viagens, amigos de família com dinheiro
Relações parasociais, elogios pedagógicos
Já a tua cara projetou tudo aquilo de que me envergonho de mim própria
e dizem que tu és um otário (incluindo eu).
Mas o que sei sobre mim própria não deixa de ser verdade
(mais do que tu sabes, mais do que poderias saber).
E a única coisa que me conforta é não saberem mesmo
Para poder fingir que está tudo bem, que não sei também-
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